Venda de agrotóxicos altamente perigosos é mais intensa em países pobres, diz estudo


Fran Paula, engenheira agrônoma e mestre em saúde pública, lecionou a aula pública “O envenenamento do povo brasileiro” (foto: Luiza Damigo / ABA-Agroecologia)

Aproximadamente três milhões de toneladas de agrotóxicos são utilizados anualmente em todo o mundo. Somente em 2017, cerca de 1,2 milhão de toneladas das substâncias consideradas “altamente perigosas” pela Rede de Ação contra Agrotóxicos (Pesticide Action Network – PAN) foram aplicadas em cultivos em países de baixa e média renda, com um valor de mercado de cerca de 13 bilhões de dólares (54,2 bilhões de reais).

As informações são do estudo “Lucros altamente perigosos”, elaborado pela ONG Suíça Public Eye em parceria com a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e com a organização social FASE.

A versão em português do documento foi lançada na última quinta-feira (29), na aula pública “O envenenamento do povo brasileiro” – sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde humana – durante a 18ª Jornada de Agroecologia.

Segundo Fran Paula, engenheira agrônoma e mestre em saúde pública, empresas multinacionais como a Syngenta, líder no mercado de agrotóxicos, lucram bilhões em detrimento da saúde de populações de países como Brasil, Equador, Uruguai e Paraguai.

De acordo com o estudo da Public Eye, a Syngenta é a principal vendedora de agrotóxicos no território brasileiro, considerado o maior consumidor mundial dos agrotóxicos mais perigosos. A fabricante dos pesticidas detém 18 por cento do mercado nacional, com vendas que, em 2017, atingiram mais de um bilhão e meio de dólares (6,6 bilhões de reais).

Em 2017, cerca de 370 mil toneladas de agrotóxicos altamente perigosos foram pulverizados em plantações no país, o equivalente a aproximadamente 20 por cento do uso mundial.

Durante a aula pública, Fran Paula acrescentou que a intensa comercialização de agrotóxicos em países de baixa renda consiste em uma política de exploração desses países.

Para ela, prova do perigo a que estão sendo submetidas as populações da periferia capitalista é a restrição da própria União Europeia em relação às substâncias tóxicas comercializadas livremente nesta parte do globo.

Dos 120 ingredientes ativos de agrotóxicos produzidos pela empresa Syngenta, por exemplo, 51 não estão autorizados em seu país de origem, a Suíça.  Outros 16 deles foram banidos devido ao impacto à saúde humana e ao meio ambiente.

O quadro geral é ainda pior: Um terço dos 290 agrotóxicos liberados apenas nos oito primeiros meses de governo Bolsonaro, são proibidos no continente europeu.

Além da intoxicação direta por meio do manuseio dos agroquímicos ou pela alimentação de determinado alimento que apresenta grande concentração de veneno, o relatório atesta que a presença de agrotóxicos na água é alarmante.

Com base em dados do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água Para Consumo Humano (Sisagua), do governo federal, o estudo revela que há uma contaminação extensa nas águas direcionadas para consumo humano no território brasileiro.

Dos mais de 850 mil testes realizados entre entre 2014 e 2017 para detectar a presença de agrotóxicos nas águas, a Public Eye constatou resíduos em 86 por cento deles. (pulsar/brasil de fato)

Faça um comentário

− 1 = 1