No Brasil, um continente de monoculturas banhado em agrotóxicos


(foto: CC / WIKIMEDIA)

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Os mais de 33 milhões de hectares de lavouras de soja que se espalham pela região Centro-Oeste, Sul e parte do Sudeste do Brasil poderiam preencher quase que toda uma Alemanha. Ou ocupar 11 vezes a área da Bélgica. A comparação ajuda a dar uma ideia da dimensão territorial dessa monocultura que consome sozinha 52 por cento de todo o agrotóxico vendido no país, que é campeão no uso desses produtos.

A cana de açúcar, por sua vez, embora responda por dez por cento dos venenos utilizados e ocupe menos de um terço da área da soja, tende a aumentar suas lavouras, que avançam por diversas regiões. Em todo o território de Portugal já não caberiam os dez milhões e meio de hectares de cana hoje espalhados pelo Brasil.

E com novas plantas geneticamente modificadas em fase de avaliação para liberação, a tendência é que nos próximos anos os agroquímicos sejam ainda mais usados, multiplicando a incidência de casos de câncer, malformações, intoxicações e mortes.

Os dados alarmantes constam do atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, lançado na última segunda-feira (27) pela professora Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP).

Em 290 páginas, a professora escancara a miséria socioambiental que toma conta do Brasil. No atlas propriamente dito há mapas por regiões, estados e municípios relacionados a intoxicações conforme diversas variáveis, como sexo, circunstância da contaminação, faixa etária, grupos étnico-raciais e locais de exposição.

O estudo demonstra a realidade de comunidades indígenas contaminadas pelo agronegócio que avança sobre seus territórios, de mulheres que adoecem por trabalhar na colheita de frutas às margens irrigadas do São Francisco, na Região Nordeste. Ou mesmo de bebês intoxicados bem antes de completar um ano de vida.

Por meio de infográficos, é possível, por exemplo, ter uma noção do tamanho do problema ao comparar áreas ocupadas por culturas banhadas em agroquímicos, muitos banidos e proibidos no exterior, com as dimensões de  países da União Europeia, onde a população cada vez mais rejeita esses produtos – e governos, como o da França, pretendem adotar medidas cada vez mais restritivas e reduzir a quantidade de venenos permitidos.

Enquanto os países da União Europeia permitem até 0,1 micrograma de glifosato por litro de água, o Brasil permite 500 microgramas – cinco mil vezes mais.

De acordo com a professora, a obra tem como pano de fundo a questão agrária, intocada mesmo nos governos de Lula e Dilma Rousseff.

Larissa Mies Bombardi afirma que “Dos trabalhadores em situação de trabalho análogo ao de escravo, 70 por cento estão na agricultura, o mesmo setor que consome 70 por cento da água, envenena o meio ambiente e que deixa um milhão de pessoas intoxicadas, matando uma a cada dois dias.” Para ela, “trata-se de uma forma silenciosa de violência no campo.” (pulsar/rba)

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