Lava Jato escondeu gravações para impedir posse de Lula como ministro


Sergio Moro (foto: Pedro França/Agência Senado)

Reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo neste domingo (8), com informações obtidas por meio de fonte anônima pelo The Intercept Brasil, mostram que conversas gravadas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que contrariavam a hipótese de obstrução de Justiça adotada pelo então juiz Sergio Moro para divulgar os grampos,  permaneceram em sigilo de Justiça.

O magistrado, em 16 de março de 2016, divulgou um áudio com uma conversa entre a então presidenta da República Dilma Rousseff e Lula, telefonema que serviu como base à época para decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)  Gilmar Mendes, de suspender a nomeação de Lula como ministro-chefe da Casa Civil. A Lava Jato adotou a narrativa de que o telefonema mostraria que a posse do ex-presidente tinha como objetivo travar as investigações sobre ele, transferindo a responsabilidade pelo seu caso de Curitiba para o STF. A interpretação foi encampada de forma acrítica pela mídia tradicional.

As conversas no Telegram entre membros da força-tarefa mostram que outros diálogos desmentiam essa tese, com Lula afirmando que sua entrada no governo se destinaria a salvar o governo em crise. São diversas anotações realizadas pela Polícia Federal, entre elas conversas em que Lula buscava uma reaproximação com Temer e o MDB, acenos recebidos pelo vice-presidente em dois telefonemas. Ainda que os registros mostrem os policiais atentos a todas as conversas do ex-presidente, a conversa entre Dilma e Lula foi a única anexada pela PF aos autos da investigação antes que Moro determinasse o levantamento do sigilo do processo.

A força-tarefa soube uma semana antes da oficialização a respeito do convite feito por Dilma a Lula e em diversas ocasiões o ex-presidente expressou não estar certo sobre a decisão de assumir o ministério. No dia 9 de março, o agente Rodrigo Prado ouviu Lula confirmar o convite, numa conversa com o ex-ministro Gilberto Carvalho. O áudio anexado aos autos pela PF mais tarde mostra que o ex-presidente temia que sua ida para o governo fosse associada a uma tentativa de escapar da Lava Jato.

Após a nomeação, Lula conversou com sua assessora Clara Ant e, segundo as anotações feitas pelos agentes, ele indicou que estava desconfortável com a situação após a nomeação. “Diz que acabou de se foder. LILS diz que ficaram discutindo até meia-noite. LILS tem mais incerteza do que certeza. LILS diz que não tem como escapar ‘dela’”, resumiu o agente que estava na escuta, identificando o ex-presidente pelas iniciais de seu nome completo. (pulsar/rba)

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